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Minha Aventura
 
  ILHAS GALÁPAGOS - Uma viagem no tempo 01/10/2003  
 
 
 
O início Quito, arredores e a chegada nas ilhas

No ano passado, depois de 5 anos de mergulho e de ter passado esse tempo todo sonhando com a viagem, finalmente conseguimos realizar o sonho de ir a Galápagos o arquipélago equatoriano localizado no Pacífico, a 1.000 km da costa e onde Darwin desenvolveu a teoria da evolução das espécies.

A viagem não é, definitivamente, um passeio fácil. Para começar, foram meses de planejamento - e de stress. Agendamos tudo por conta própria e diretamente com os equatorianos, porque os pacotes que eram oferecidos no Brasil ou não eram focados em mergulho ou não ofereciam opção de viagem na época em que poderíamos fazer a nossa. Não vamos torrar a paciência de ninguém descrevendo os detalhes da operação de reservas e transferência de dinheiro. Mas fica o registro: se você quiser ir a Galápagos, procure se encaixar num grupo. O melhor é sair do Brasil com um grupo fechado e já com tudo acertado, como normalmente fazem os Europeus e Americanos.

Depois de todo o stress de programar, agendar, reservar e pagar a viagem, estávamos mais que nunca precisando das férias. A viagem começou por Quito e arredores já que estávamos ali, aproveitamos pra conhecer a capital equatoriana, que é patrimônio histórico da humanidade, e um pouco da vidinha do interior também. Quito é realmente muito bonita, toda cercada de montanhas e guardada pela imensa estátua da Nossa Senhora. Há muitas igrejas para visitar, um mosteiro fantástico - o de São Francisco, que está entre os maiores -, um belo museu arqueológico e uma cidade antiga muito bonita.

Nos arredores de Quito há muitos vulcões, pequenas cidades onde os indígenas são a grande maioria da população e belos mercados para comprar artesanato local. O mais interessante é o de Otavalo, onde nem as legiões de turistas norte-americanos e europeus conseguem quebrar o clima pitoresco e pacífico. Se você for até la, não deixe de fazer duas coisas: pechinchar nas compras e comer porquinho da índia (cuy). O cuy é um dos pratos típicos do Equador. O bichinho vem assado inteiro, com patinhas, orelhinhas, tudo. E é uma delícia.

Depois de alguns dias em Quito, embarcamos para Galápagos. Somente uma empresa faz os vôos e o check in é totalmente caótico, mas você esquece tudo isso quando sobrevoa as ilhas, depois de 3 horas de vôo. Elas são escuras, pura rocha vulcânica que parece ter se formado há uma semana. O relevo é áspero, rude, há muitos vulcões, e a vegetação é, na maior parte das ilhas, bem esparsa. Já de cima você percebe que o lugar é diferente, especial e primitivo.

Descemos do avião e dali pegamos um ônibus até uma balsa onde um lobo marinho e um iguana davam as boas vindas e sinalizavam que o lugar era realmente muito especial. Pedimos licença ao comitê de boas-vindas, pegamos a balsa, daí outro ônibus e 2 horas depois estávamos em Puerto Ayora, a maior cidade das ilhas Galápagos. Várias ilhas são habitadas, e duas têm aeroportos. Puerto Ayora é o ponto que concentra a maior quantidade de atividades, e também de hotéis e restaurantes.

Ficamos alguns dias em Puerto Ayora. Foi o suficiente para conhecermos as atrações locais e comprarmos várias camisetas bem caras, aliás, como quase tudo no Equador. Fizemos um belo snorkling numa loberia próximo a Puerto Ayora. Brincamos muito com os lobos marinhos, especialmente os mais jovens, que são curiosos e adoram tirar fininhos da gente. Foi tão bom que quase esquecemos a temperatura da água - ela é muito baixa, por causa das correntes que vêm do pólo sul, e fica sempre na casa dos 16 a 24ºC. Outros dois belos snorklings que fizemos nas redondezas foram um mergulho em uma greta que em determinada hora do dia ficava cheia de white tip sharks, e um mergulho num braço de mar que ficou isolado do mar aberto por causa dum desabamento. Também conhecemos os túneis de lava cavernas que se formam pelo esfriamento de uma camada externa de lava enquanto no seu interior a lava líquida continua a correr até deixar um canal vazio.

Não há como ir a Puerto Ayora e não conhecer a estação Charles Darwin, uma base científica onde vivem exemplares das várias espécies das tartarugas galápagos, animais terrestres que chegam a pesar 400 km e atingem 250 anos. São bichos impressionantes, que lembram muito o E.T. (na verdade, é o E.T. que lembra os galápagos, já que Steven Spielberg se inspirou nos bichos para criar o personagem). Depois vimos os galápagos em liberdade, numa reserva natural no centro da ilha. Os galápagos foram quase extintos de tanto serem usados como comida de pirata. Eram colocados nos navios, onde sobreviviam por até um ano proporcionando carne fresca para a tripulação. Hoje os galápagos são protegidíssimos, e há centenas deles.

Os mergulhos no live aboard
Depois de passar por Puerto Ayora, embarcamos no Daphne, um iate para 25 passageiros, e começamos o live aboard de oito dias para mergulho nas ilhas. Nosso grupo era formado por um casal de italianos acompanhado de um amigo, um casal de austríacos e 3 casais de norte-americanos. Todos mergulhadores avançados, bem-equipados e com belas histórias para contar e deixar os outros babando. A tripulação do barco era composta por dois guias naturalistas de mergulho, o capitão do navio, dois cozinheiros e três marinheiros. Todas as cabines eram suítes, o barco era muito confortável e a comida era ótima.

O Daphne rumou diretamente para as duas ilhas mais distantes do arquipélago Wolf e Darwin, que ficam a 16 horas de navegação (e enjôos) do ponto de partida. Depois de alguns dias mergulhando nas duas ilhas, tomaríamos o rumo de volta, para mergulhar em pontos mais próximos do ponto de partida.

O Daphne rumou diretamente para as duas ilhas mais distantes do arquipélago Wolf e Darwin, que ficam a 16 horas de navegação (e enjôos) do ponto de partida. Depois de alguns dias mergulhando nas duas ilhas, tomaríamos o rumo de volta, para mergulhar em pontos mais próximos do ponto de partida.

Galápagos, como já dissemos, realmente não é um local fácil inclusive para mergulho. Mas vale cada segundo em se está debaixo d'água. Além de serem mergulhos bem gelados, a visibilidade não é exatamente excepcional - pegamos 25 metros, mas também houve descidas em que em poucos momentos se passava de 4 ou 5 metros. Em Galápagos as condições variam muito, e rapidamente, e somente em condições excepcionais a visibilidade chega aos 35 metros. São mergulho desconfortáveis, onde roupas de 7 mm são indispensáveis, assim como as toucas. É preciso bastante lastro, o que, por sua vez, aumenta o consumo de ar. Os mergulhos são feitos sempre a partir de dingis (botes infláveis) e as correntes podem ser fortíssimas. É obrigatório o uso de dive alerts e scuba tubas para o caso de alguém se perder do grupo. A descida é direta, não há tempo para ajustar a máscara e checar equipamentos boiando na superfície. Em todos os mergulhos você se joga do barco de costas com o colete desinflado, e o grupo se encontra nos 12 metros de profundidade. O primeiro mergulho do dia é a 6h e 30 min da manhã (nesse horário todos já estão lá embaixo), antes do café da manhã. E nenhum mergulho acontece depois das 15h, para que após o mergulho ainda haja algumas horas de claridade caso seja preciso catar algum mergulhador perdido. Aqui um guia e uma tripulação experientes podem representar a diferença entre o paraíso e o inferno de ser arrastado por correntes para alto mar.

Mas nada disso importa quando a gente está lá, na água. Temos certeza que qualquer mergulhador do mundo enfrentaria tudo isso e muito mais para estar em Galápagos. Nem que fosse só pra ter a oportunidade de avistar grandes cardumes de tubarões martelo e o raro privilégio de mergulhar com um tubarão baleia. Nós tivemos o privilégio de ter nove encontros com tubarões baleia nos mergulhos em Darwin. E tanto em Darwin quanto em Wolf não houve nenhum mergulho sem avistarmos dezenas de tubarões martelo.

Voltando aos tubarões baleia: na maior parte das vezes eles passaram por nós a uma velocidade que, se não era alta, também não era baixa o suficiente para que conseguíssemos nos manter junto deles por muito tempo. Mas em um dos encontros, permanecemos por mais de 15 minutos nadando com aquela coisa. "Coisa" talvez seja a melhor palavra pra designar o bicho, que quando passa por você parece um submarino (tudo bem, nunca encontramos um submarino enquanto mergulhávamos, mas enfim, era uma analogia pra dar uma idéia de tamanho e... ah, deixa pra lá). Avistar o maior peixe do mundo causa espanto e nos deixa maravilhados. Não há espaço para o medo. É possível ficar muito perto dele porque o bichão é extremamente dócil e permite que os mergulhadores se aproximem tanto quanto quiserem. Nós ficamos a um braço de distância, e tivemos que segurar a vontade de pegar uma carona na barbatana como sempre se vê nos programas sobre mergulho que passam no Discovery Channel e na National Geographic: nossos guias haviam dado instruções expressas para que não tocássemos os bichos e assim os preservássemos do stress.

Os encontros com tubarões baleia são, com certeza, o ápice dos mergulhos em Galápagos e em qualquer lugar. Mas mesmo que não o encontrássemos - e não existe nunca a certeza de que isso vai acontecer - os mergulhos teriam sido inacreditáveis, por muitas e muitas razões. Começando pelos cardumes com dezenas de tubarões martelo. Eles chegam muito próximo e agem com a segurança e tranqüilidade de quem está no topo da cadeia alimentar. O interessante com os tubarões é dar uma seguradinha na respiração com menos bolhas eles chegam bem mais perto. Além dos martelos existem várias outras espécies na região. Os mais comuns são os silk sharks e os whithe tip sharks. Os silks costumam nadar com os golfinhos e foi um incidente com um mergulhador que fazia snorkling com golfinhos e acabou mordido por um silk por aqueles dias que levou nosso guia a nos impedir de fazer snorkling em Darwin e Wolf.

Encontramos também muitas tartarugas. Elas nadam na tua direção sem desviar e te pedem passagem. Há moréias, quase sempre desentocadas, e cardumes gigantescos de peixes - especialmente os chamados gringo fishes, que formam grupos que podem se estender entre os 5 e os 20 metros de profundidade. Os gringos têm esse nome por causa da cor avermelhada, semelhante à que os turistas adquirem no sol equatorial. O local também é ponto de encontro de arraias de todos os tipos. Lamentavelmente não vimos nenhuma manta debaixo dágua só saltando na superfície. Na melhore área para avistamento de mantas, Gordon Rocks, a visibilidade era muito precária. Todavia, em Wolff tivemos um encontro impressionante com uma grande Eagle Ray. Vimos durante os mergulhos muitos leões marinhos, atuns de 1 metro e meio, peixes-pedra e por aí vai. Os mergulhos são realmente paradoxais, pois se tem a oportunidade de ver tubarões baleia de 12 metros e nudibrânquios de pouco mais de um centímetro, tubarões martelo com cara de mau e lobos marinhos com olhares doces. Num snorkling vimos pingüins os menores do mundo e os únicos que vivem acima da linha do equador. Eles estavam pescando e aproveitaram para bicar nossas nadadeiras. Deram um show, que só não foi perfeito porque a máquina fotográfica encrencou naquela hora. A Lei de Murphy aquela que diz que se algo pode dar errado, vai dar errado vale muito mais quando se faz foto sub.

A nossa experiência em Galápagos nos mostrou que este lugar pode ser a realização de muitos sonhos, mas também confirmou uma informação que tínhamos antes de partir: para aproveitar de verdade, é preciso ser mergulhador avançado e ter bastante mergulhos logados. Há operadoras que exigem um mínimo de 100 mergulhos logados para que se possa mergulhar nas ilhas mais distantes. E realmente o melhor (mas também o mais difícil) de Galápagos está em Darwin justamente onde se tem a maior chance de encontros com tubarões baleia e onde a vida marinha teve pouco contato com mergulhadores. Ir à Galápagos sem operar Darwin e Wolf pode ser caro e frustrante, pois as condições de mergulho nas ilhas ao sul mudam muito rapidamente e podem se tornar péssimas.

Mais bichos e o fim da viagem

Além dos megulhos fantásticos, Galápagos oferece oportunidades únicas de observar e chegar muito perto de animais fascinantes. Além do famoso darwin finch (o pássaro que inspirou Darwin na elaboração da sua teoria e que não passa de um pardalzinho), existem zilhões de aves em Galápagos. Elas voam e pousam pertinho da gente (o que é lindo), mordiscam nossos dedos (o que é divertido) e fazem muito cocô nos barcos (o que é péssimo). As aves mais famosas da ilha, além do pardalzinho - são as fragatas e os atobás. Os atobás existem em vários padrões o mais famoso tem os pés azuis na idade adulta. Já as fragatas macho têm um papo enorme que inflam na época de acasalamento. Ficam com uma enorme bola vermelha no pescoço, quase do tamanho de uma bola de futebol.

Em Galápagos existem também muitos iguanas. Muitos mesmo. Eles estão no ponto de ônibus, nas trilhas, nas rochas e também na água. Iguanas grandes, iguanas médios, iguanas pequenos. Iguanas jovens e iguanas velhos, iguanas terrestres e também marinhos. Galápagos é o único lugar na terra em que existe essa espécie, capaz de passar mais de 10 min debaixo da água enquanto se alimenta de algas.

Falando em muitos, vamos aos lobos marinhos. Eles ficam na água ou em terra, deitados, muitas vezes embolados e se usando mutuamente como travesseiros. Tomam conta das trilhas demarcadas para os visitantes nas ilhas em que o desembarque é permitido, e não saem quando turistas de bermudas passam embasbacados com suas máquinas fotográficas. Diferentes dos iguanas, os lobos marinhos são animais fofos. Dá a sensação de que você caiu no meio de uma enorme seção de bichos de pelúcia quando entra numa colônia.

Depois de ver todos esse bichos, conhecer essas ilhas tão fantásticas e viver algumas semanas como se tivéssemos ido parar num tempo remoto, em que os homens ainda não haviam começado a acabar com a natureza e os bichos não tinham medo, chegou a hora de retornar. Nós voltamos pro Brasil exaustos, felizes e com muitos filmes pra revelar. Trouxemos também uma baita vontade de voltar a Galápagos um dia.
 
Josué Menezes e Martina Fischer
 
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